DESVIOS DE CONDUTA NAS ORGANIZAÇÕES
Tem gente fazendo coisa errada na empresa, e agora?

Na administração pública os desvios de conduta parecem ser muito comuns, a julgar pelas notícias diárias na imprensa. Na gestão privada, em que o olho do dono está mais próximo - ou onde existem controles mais efetivos -, os desvios são mais uma anomalia, embora também ocorram. 


Tocar neste assunto no escopo das empresas privadas é uma tarefa espinhosa, pois são situações sobre as quais pouco se fala e quase nunca se escreve.  Aqueles que tiveram a desventura de vivê-las pessoalmente sabem disso. Quando ocorrem, geram nas pessoas a par do que está ocorrendo uma angústia e um  dilema moral: “Falo ou não falo, denuncio ou não denuncio?” E se essas situações não são prontamente resolvidas – o que nem sempre é possível -, provocam  uma sensação de impotência, um clima de injustiça e um sentimento de vergonha pura e simples. 


A natureza e a gravidade dos desvios variam bastante, indo de pequenos furtos de dinheiro ou de materiais, aceitação de presentes para favorecer algum fornecedor ou cliente, manipulação de relatórios para a matriz, até a depredação da natureza, pagamento de subornos à fiscalização, ordens para se adotar procedimentos ilegais, graves conflitos de interesses e desvios significativos de recursos ou bens da organização. 


Às vezes o agente delinquente pertence a escalões mais baixos e o prejuízo restringe-se a sua esfera de ação individual, sendo visível para poucas pessoas.  Quando, porém, a ação danosa ocorre em níveis hierárquicos elevados, seus impactos são muito mais amplos e frequentemente tornam-se de conhecimento generalizado,  embora nunca sejam abertamente comentados. Quanto mais elevado o nível do agente, maior o potencial de desgaste para o clima organizacional, principalmente quando se tem a impressão de que uma ação corretiva não está sendo tomada, ou seja, de que ninguém está fazendo nada!   Nesse quadro, ninguém mais sabe em quem confiar e a hierarquia se desmoraliza. 


Os funcionários também são vítimas dos desvios de conduta, no mínimo como partes injuriadas.  Também têm medo de retaliações - “se falarem demais”.  Normalmente, a maioria se cala, desmoraliza-se,  aliena-se e a  organização adoece.  Além disso, pode haver a perda de talentos que preferem trabalhar em outro lugar. 


Quando há uma denúncia, os efeitos são incertos, principalmente se o agente causador ocupar um alto nível hierárquico, o negócio estiver indo bem, e o agente for um elemento importante  para esses bons resultados.  Nestes casos, lamentavelmente, pode ser que a matriz ou o proprietário prefiram “olhar para o outro lado” - pelo menos por um tempo -, talvez esperando por um momento em que a correção traga um menor prejuízo para os negócios. 


E quando tomadas, por que as  ações corretivas parecem demorar tanto?  


Porque antes de se tomar qualquer medida é imprescindível uma investigação cuidadosa que leve a uma conclusão inquestionável.  E porque isso precisa ser feito discretamente, quase sempre sem o conhecimento do investigado, de modo a  se evitar injustiças e o risco de retaliações legais contra a empresa. 


Para os colaboradores que acham que não está havendo um desfecho satisfatório restam alternativas difíceis e desagradáveis: apostar que ainda haverá uma solução para o problema e continuar na empresa, ou tentar sair da organização na primeira oportunidade adequada. As duas alternativas são ruins, o que demonstra que um desvio de conduta não resolvido causa danos bem além dos simplesmente materiais.


Não há como culpar quem fica, não há glória para quem sai.  O ruim mesmo é o desvio e o seu agente causador.  E o irônico é que, após os danos ao clima organizacional e a saída de talentos, em geral os desvios acabam sendo descobertos e seus responsáveis acabam sendo devidamente punidos ou afastados. Esse é o lado positivo, apenas é lamentável que às vezes leve tanto tempo! 


Do mesmo modo que é impossível assegurar-se um ambiente totalmente à prova de desvios de conduta, é preciso também levar em conta que é muito mais difícil não ser ético numa empresa que é ética. A rápida solução de um desvio reforça os valores da organização e leva conforto e segurança para toda a comunidade dos funcionários.

 

Agosto de 2009.

 

Um abraço a todos,

Paulo Murayama Rose Maciel

 

 

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