OS DESAFIOS DA LIDERANÇA NUM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO (1a. parte)
Primeiro de três artigos sobre a liderança num mundo em rápida transformação.

1. Uma situação complexa – a necessidade de uma transformação individual                       


Este é o primeiro de dois artigos que tratam das profundas modificações na sociedade e no ambiente nos últimos anos e seus profundos impactos na forma de gerir negócios e de liderar pessoas.  


Esta é certamente uma temática ambiciosa, principalmente numa época em que as transformações na tecnologia, nos valores e no ambiente social, político e econômico são tão intensas, rápidas e profundas que podem levar as pessoas a ponto do desnorteamento ou até da alienação.  Como a questão da liderança não é um assunto pacífico até em épocas mais estáveis, numa fase como a que vivemos o máximo que podemos tentar fazer é colocar alguns pontos para reflexão de cada um. Ao longo deste artigo subdividido em duas partes, iremos tecendo considerações sobre o momento atual, suas promessas, desafios e ameaças, para, ao final, concluirmos com algumas considerações específicas sobre a questão da gestão e liderança.  Essas considerações ficarão, assim, inseridas no contexto econômico, social e existencial da atualidade. 


O aspecto mais importante desta questão talvez seja a conscientização de que o homem precisa mudar para se adaptar a esses tempos.  Como qualquer outra mudança em grande escala, esta transformação virá de dentro para fora – uma evolução ou revolução individual.  As mudanças interiores serão o ponto de partida para que administradores e empregados - e a própria humanidade -, possam lidar com essas tremendas pressões e mutações do meio-ambiente e criar um mundo melhor, ou salvá-lo do desastre.  


 


2. Uma geração que vale por oitocentas 


O mundo realmente está mudando, e numa velocidade impressionante e sem precedentes na história da humanidade, sendo útil, neste sentido, reproduzir as palavras de Toffler: 


“Se os últimos cinqüenta mil anos de existência do homem fossem divididos em períodos de gerações, de aproximadamente 62 anos cada uma, teríamos tido 800 gerações. Dessas 800 gerações, 650 foram inteiramente passadas nas cavernas. Apenas durante as 70 últimas gerações foi possível a comunicação efetiva de uma geração para a outra, uma vez que a escrita possibilitou essa transposição.  Apenas durante as últimas seis gerações as massas humanas viram pela primeira vez, a palavra impressa.  Somente durante as últimas quatro, foi possível medir o tempo com alguma precisão.  Apenas nas duas últimas, pode alguém usar um motor elétrico.  A esmagadora maioria de todos os bens materiais que usamos cotidianamente em nossa vida comum, desenvolveu-se dentro da presente geração, que é a octogentésima.”  


  


3.  As incríveis mudanças nos últimos vinte anos. 


De 1985 para cá, ponto em que minha geração de executivos acelerava sua carreira, muita coisa mudou de forma alucinante, numa velocidade que, tudo indica, só irá aumentar. 


Sintetizamos, a seguir, algumas dessas mudanças:

 


3.1. A tecnologia nos escritórios: os melhores escritórios usavam o telex (fax, nem pensar), alguns micros AT e XT (sem Windows!), o budget era rodado em máquinas de contabilidade, a própria telefonia funcionava mal, não havia Internet, LAN’s, Wan’s e coisas assim.   


3.2. A microinformática mudou o compasso: evoluímos para os micro-computadores, laptops e palm-tops; dos 60 megabytes de memória aos hoje corriqueiros 40 gigabytes; o ritmo pessoal acelerou-se face à rapidez do processamento de dados e do acesso imediato a um grande volume de informações.   Trabalha-se hoje muito mais rápida e produtivamente do que há vinte anos.  


3.3. Os telefones celulares – uma benção e uma praga: parece inacreditável, mas eles não existiam há 15 anos atrás. Hoje, milhões de pessoas estão permanentemente acessíveis através dos seus pequenos aparelhos pendurados na cintura ou dentro da bolsa.   


3.4. A Internet mudou tudo: em apenas dez anos, passamos a ter acesso instantâneo a um número incontável de informações em todas as partes do mundo e comunicações em tempo real com as pessoas, independente da distância física. Em conjunto com os celulares, a Internet virtualizou o escritório e a nós mesmos.  


3.5. O trabalho em equipe ocorria em reuniões: não se falava em trabalho em grupo, times de projeto e coisas assim. As pessoas trabalhavam mais isoladas e coordenavam-se umas com as outras através de reuniões e de memorandos. A gestão por processos ou projetos ainda não estava inserida nos sistemas de gestão.  


3.6. A motivação era obrigatória: A expressão “Departamento Recursos Humanos”, e tudo o que hoje ela representa, ainda não fazia parte do vocabulário da maioria das organizações. Acreditava-se que recompensas materiais eram suficientes para o funcionário trabalhar mais e mais eficientemente. Uma aparente falta de motivação provocava uma avaliação negativa, quando não irritada, da parte dos gestores. 


3.8. Liderança - do líder solitário ao líder participativo: saímos dos executivos carismáticos, decididos, solitários tomadores de decisões e chegamos aos líderes aglutinadores de hoje, que inspiram uma visão comum no grupo e apóiam ações participativas em equipes multidisciplinares.  


 


4. Outras transformações econômicas, políticas e sociais.           


Além dos grandes adventos tecnológicos que mudaram as empresas, tivemos também outras grandes transformações sociais, econômicas e políticas que afetaram a nossa forma de encarar a vida e a nós mesmos, gerando insegurança e incerteza.   


4.1. Globalização - todo mundo concorre com todo mundo: pressões sem precedentes sobre as empresas e trabalhadores, com acentuada obsolescência da força de trabalho e desemprego estrutural. 


4.2. Meio-ambiente - do jeito que a coisa vai não sobrará nada para ninguém: crescimento da consciência ambiental, tanto por força da legislação local e internacional, como pela própria reação das empresas e das pessoas, muitas delas organizadas em ONG´s.  Começamos a perceber que o planeta não suportará as agressões indefinidamente. 


4.3. A democracia chegou: os brasileiros de 40 anos votaram pela primeira vez num presidente em 1990; a queda dos regimes autoritários foi uma regra no mundo todo e, hoje, qualquer forma de opressão avilta o ser humano, inclusive nas empresas; repúdio aos desmandos e à corrupção. 


4.4. Novo status das mulheres no mundo empresarial e na sociedade: grandes mudanças nos papéis tradicionais dos homens e mulheres na vida familiar e nas empresas, áreas em que a mulher registrou grandes avanços, estabelecendo uma maior justiça nas relações e rompendo com um status quo que remontava aos primórdios da história.   


4.5. A família não é a mesma dos nossos pais e avós: desnuclearização da unidade familiar, representada por mais divórcios, menos casamentos, mais “morar juntos”; enfraquecimento da família com valor de referência; maior liberdade e independência das novas gerações.   


4.6. Hegemonia do sistema capitalista: sensação de fim de alternativas de pensamento político e econômico em escala global; insegurança pela ausência da possibilidade de escolhas. 


4.7. O terror e o domínio da força: final da Guerra Fria e início de conflitos regionais de base étnica e religiosa; recrudescimento do terror e ostensiva imposição de idéias através da força.  


4.8. Costumes: agora se pode (quase) tudo:  forte liberação de costumes, resultando numa sociedade mais permissiva.

 


4.9. Educação - de passar conteúdo a ensinar o aluno a aprender: a educação deixou de poder transmitir material suficiente para municiar as pessoas para enfrentar a vida - o estoque de conhecimentos acumulados simplesmente não resolve mais. O professor, assim como os líderes nas empresas, deixa de ser um transmissor de conhecimentos, e passa a gerenciar o aprendizado do aluno.  O princípio andragógico do aprender a aprender começa a ser a regra, nas escolas e nas empresas. 


4.10.  Consumismo – é aqui onde mora a felicidade?:  As constantes novidades nos produtos também embutem uma sensação de obsolescência e de frustração, na medida que sabemos que é inútil tentar possuir “o último modelo” de qualquer coisa. Surgimento de sinais de que as referências para os valores - e do que é importante para ser feliz -, não estão fora, mas sim em nosso próprio interior. Se este movimento continuar a crescer,  terá conseqüências econômicas formidáveis. 


Tantas transformações importantíssimas, de natureza tecnológica e sócio-econômica,  em tão pouco tempo, são mesmo de assustar, confundir, angustiar ou alienar.  Em menos de um terço de uma daquelas gerações teóricas mencionadas por Toffler,  enfrentamos profundas modificações na nossa maneira de viver e de ver a vida, numa velocidade jamais imaginada pelos nossos antepassados.  Pode-se dizer que muitas pessoas vivem com os pés numa realidade e a cabeça na outra, e tudo indica que as transformações continuarão a ocorrer, num ritmo ainda mais acelerado. 


Segundo Robert Ormsteins, em “A Evolução da Consciência", o sistema mental humano não se modificou muito nos últimos 40 mil anos e, portanto, está em conflito com as necessidades do mundo moderno. Por isso o autor afirma que esta é uma era de reeducação: ou assumiremos a responsabilidade de nossa própria evolução ou tornaremos a vida pior do que pode ser. 


A busca de propósito, da verdadeira vocação, daquilo que motiva o ser humano a agir, está diretamente ligada também ao mais amplo sentido de espiritualidade.  Esse processo está além da religiosidade, pois se baseia em valores universais que reconectam o ser humano com a natureza e com uma fonte interior de conhecimento e de sabedoria.    


Há, portanto, uma crescente percepção da necessidade de mudança de paradigmas, pois o modelo que estamos utilizando não tem respondido aos nossos anseios íntimos por satisfação, contentamento e felicidade, da mesma forma que não tem correspondido a ideais de uma sociedade mais justa e mais segura e de um desenvolvimento sustentável. 


Na segunda parte deste artigo,  faremos comentários sobre os impactos destas mudanças  nas organizações e  sobre as competências da liderança neste cenário de transformação. 

 

Um abraço a todos,

Paulo Murayama Rose Maciel

 

 

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